Humberto está morto há uma semana. Alguém sabe quem é o Humberto? Ninguém, né? E se eu disser Humberto Monteiro? Não ajuda grandes coisas, não é? Mas funciona assim mesmo. Todos os dias, milhares de pessoas morrem. Nossa atitude é pedir pro pai alcançar a salada enquanto William Bonner informa três acidentes no feriado.
Ao 33 anos, Humberto Monteiro era formado em administração de empresas. Nascido em São Paulo, morava desde criança em Porto Alegre. Há três anos havia sido aprovado no concurso para escrivães da Polícia Civil. Queria ser delegado. Tudo isso os jornais informaram. Mas uma coisa eles não disseram: Beto era gago. Tinha sérios problemas de dicção.
Moreno, bonito, de boné pra trás. Um guri. O melhor agente da 3ª Delegacia do Denarc era também o mais atencioso. Lembro-me de umas quatro pautas que tive de cobrir no plantão do Denarc, o COT, aqui no Palácio da Polícia. Eu nunca tinha câmera para fotografar as apreensões e os traficantes. O Humberto além de conseguir as imagens pra mim, ainda me explicava termos policiais e não ria da minha ingenuidade de não entender por que a Polícia sempre trazia um bando de papéizinhos junto com as armas e drogas. Me explicava o que é jet loader, miguelito e chassi. Me avisava das operações e não mexia comigo como os outros policiais.
Enfim, não acreditei quando vi a foto de Humberto estampada nos jornais. Alvejado durante uma ação do Denarc, o tímido Beto que sonhava com a titularidade de uma DP morreu. Agora sua foto vai pra uma galeria de heróis. Justo. E necessário.
Pense você, jovem estudante acadêmico que projeta um belo futuro profissional, em prestar concurso público para agente da Polícia. E ganhar R$700,00 até que um milagre provoque sua promoção e seu salário aumente. Pense que um cobrador da Carris ganha R$1.200,00. Pense que qualquer corrupção (porque ela ocorre em todas as esferas) sempre terá maior repercussão na sua área. E que as pessoas cultivam uma séria tendência a generalizar os maus exemplos dados por exceções de profissionais sem idoneidade. Pense, por fim, que sua probabilidade de atingir a média da expectativa de vida da população brasileira é muito menor. Porque sua vida pode ser, subitamente, interrompida por criminosos. Como a do Beto. É, dane-se a apatia da sociedade. Herói, sim.